Mês passado, eu e meu irmão – o filósofo e professor universitário Rodrigo Ornelas – fomos convidados a participar de um evento em Feira de Santana, na escola em que estudamos por 7 anos. O tema? Esse mesmo do título desse texto. Instigada por esse evento, comecei a pensar o que eu poderia levar de reflexão para o público, que era formado por jovens de 14 a 17 anos. Em meio a essa reflexão, saiu um texto, que agora posto aqui no blog da Gump.

Nos últimos anos, a gente vem vivenciando um grande processo de mudança na forma de se comunicar e de se relacionar. A internet é um agente importante nessa mudança e os impactos disso extrapolam – e muito – o ambiente digital. Antes o usuário tinha como fonte uma informação que vinha de cima, e a gente consumia. Com o tempo os espaços para postagem de conteúdo próprio foram surgindo e cada um de nós passamos a ser os geradores dessa informação. Ai entra: blog, twitter, tumblr, facebook, medium… Se a gente já tinha um comportamento de protestos, discussões ideológicas e ações afirmativas na sociedade, em virtude dessa mudança na forma de se relacionar com a informação, a forma de ativismo também muda. Junto com esse novo espaço aberto de expressão, vieram ferramentas como botões de compartilhamento, comentários, organizadores de eventos, hashtags e etc. Dessa forma, o ciberativismo permite que os agentes de mudanças, que não estão próximos geograficamente, se conectem e ajam juntos.

Vamos aos exemplos: A Hashtag – cujo nome do símbolo é cerquilha e eu nunca que ia saber disso hahaha – é uma ferramenta que transforma palavras e expressões em links e une todas postagem que forem “marcadas” com essa tag. Funcionam como rótulo, como auxílio à identificação de fluxos de comentários e como marca de pertencimento. Duas ações ciberativistas com hashtag como seu principal ativo, foram as do #MeuPrimeiroAssedio e #MeuAmigoSecreto, em 2015, que proporcionaram o grande boom do ativismo feminista no Brasil. A #MeuPrimeiroAssedio chegou a mais 82 mil utilizações. A #MeuAmigoSecreto gerou – em menos de 24 horas – mais de 5 mil curtidas na página que começou a campanha. A hashtag foi usada mais de 85 mil vezes em apenas 5 dias. E para além da internet, as denúncias através do 180 – disque-denúncia contra violências de cunho moral, físico e psicológico – chegou a mais de 63 mil (40% a mais do que ano anterior).

O ciberativismo é, então, toda essa ação em defesa de causas e ideologias feita através dos canais digitais. O termo às vezes nos faz pensar que é uma coisa distante, algo que “os outros fazem”, porque quando se fala em ciberativismo, é comum associar a política, questões raciais, de gênero e etc. Mas na verdade qualquer causa que você busque defender ou unir pessoas em prol dela – usando o ambiente digital como ferramenta – é ciberativismo. Pode ser social, cultural… E ciberativismo não é só o que viraliza. A gente costuma pensar ciberativismo para ações que contemplem milhares de pessoas, mas o importante mesmo é chegar no grupo ao qual ela se destina. Pode ser ciberativismo um ação focada na escola que estuda, ou em um nicho com um número pequeno de pessoas. Então, o sucesso da mobilização será quando viralizar dentro desse universo.

Parece tudo muito bom, mas na prática não é bem assim. As redes sociais e o Google, principalmente, tem como meta de negócio te oferecer o conteúdo mais relevante. O propósito da empresa é te proporcionar sempre a melhor experiência, então o Google vai mostrar sempre os melhores resultados na busca, o Facebook vai sempre mostrar o que você gosta de ver, o Instagram vai sempre mostrar as fotos das pessoas que você mais gosta de seguir. Com algoritmos que trabalham sozinhos – e têm suas fórmulas atualizadas o tempo todo – as redes entendem quais as pessoas e conteúdos que você mais interage e coloca essas publicações pra você ver primeiro. Repare: tem gente no seu facebook que você nunca mais teve notícias, mas se abrir o perfil vai ter lá um monte de atualização. Isso acontece o tempo todo! Então é “fácil” você ser ativo numa causa em um ambiente onde todo mundo concorda com você. Isso é o que, no Marketing Digital, a gente chama de fenômeno da bolha. Isso te dá uma falsa ideia da amplitude das coisas e faz você acreditar que universo de pessoas que têm pensamentos divergentes dos seus, é menor.
Veja: tudo que você faz na internet é transformado em dado e esse dado retorna pra você com esse “benefício”. As marcas usam esse dado, inclusive, pra entregar campanhas publicitárias. Alunos de ensino médio, por exemplo, chegam numa época do ano que começam a ver um monte de anúncio de inscrição de vestibular no Facebook e nos sites que visita. Ou então rola sempre aquela boa e velha pesquisa online que você faz de um tênis, dem um livro ou qualquer outra coisa, e depois o anúncio fica te perseguindo. E mais: já existem hoje ferramentas que mapeiam os seus hábitos cotidianos, apenas monitorando o GPS do seu celular. Sim, isso é muito Black Mirror.. Haha!
Bom, sabendo disso… O que fazer? Desligar o GPS do celular? Botar adesivo na câmera do computador? Hahaha! Agora é sair da bolha! Como? Um exemplo: trabalhei em uma campanha que tinha como tema principal Assédio no Carnaval. O conteúdo rodou durante alguns dias e, como estratégia de mídia, a campanha foi direcionada para homens (em sua maioria). O resultado? Comentários com as mais diversas formas de ataque e desrespeito às mulheres, declarações homofóbicas e agressões verbais. Aí você pensa: nossa, Lica… Deu ruim, hein? Pois eu digo que não! Pra mim deu bom! Esse resultado mostra que há um mundo imenso tomado pelo machismo, pela agressão e pela violência, que organicamente não recebe esse tipo de comunicação – já que estão na bolha de conteúdo deles. Essas coisas servem pra mostrar que a vida não tem somente quem comenta “palmas!”, “pisou!”, “lacrou!”, “mitou!, “ahasou!”” na sua publicação.

Mas aí você pensa “ah, Lica! Mas você tá falando de campanha paga, de investimento”. Como fazer isso sem ser dessa forma? Simples! Experimente sair da bolha você mesmo! Experimente consumir conteúdo em canais que não chegam pra você, mas que você pode rapidamente buscar. É simples chegar no Facebook e buscar por conteúdos que são contra a ideologia que você segue. E mais! Saia de outras bolhas de conteúdo, acessando sites diferentes, assistindo canais diferentes na TV, e até mesmo saindo para lugares que você nunca foi. Leia, busque, pesquise! Assim o ativismo pode ser levado pra fora do “ciber“! Comece uma movimentação online, mas que tenha um resultado fora do virtual. Use uma hashtag que vai, por exemplo, incentivar as denúncias de assédio e violência. Isso que faz você deixar de ser o “ativista de sofá” ou “ativista de facebook”. É assim que a gente consegue construir um ciberativismo como instrumento de protesto e não como um falso ativismo social.

Categorias: Digital

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